INTERNACIONAL
Enquanto a guerra com Irã se arrasta, Trump enfrentará na ONU líderes céticos
Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, discursou nas Nações Unidas há um ano, elogiou o bombardeio americano às instalações…

Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, discursou nas Nações Unidas há um ano, elogiou o bombardeio americano às instalações nucleares do Irã, realizado apenas alguns meses antes, como algo que “destruiu tudo completamente” — e disse ter trazido a paz entre Israel e Irã.
Ao retornar à ONU na próxima terça-feira, Trump enfrentará plateia profundamente cética, abalada por quae sete meses de guerra entre as forças americanas e um Irã fortalecido, bem como pela crescente instabilidade regional e por ameaça nuclear que não desapareceu, apesar de suas alegações.
Embora tenha sofrido fortes baixas militares e econômicas, Teerã permanece desafiador, obstruindo o transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz e, nos últimos dias, ganhando nova influência, na medida em que seus aliados houthis no Iêmen reforçam controle sobre ponto estratégico do Mar Vermelho, elevando ainda mais os preços globais da energia.
O avanço relâmpago dos militantes houthis colocou Trump em situação cada vez mais delicada em relação ao conflito impopular, e representou um golpe para a Arábia Saudita, aliada dos EUA, expondo também os limites da capacidade de Washington de proteger os parceiros regionais.
A maioria dos aliados europeus e asiáticos rejeitou os pedidos de ajuda de Trump em um conflito que ele iniciou sem consultá-los e que teve consequências prejudiciais para suas economias.
Com os preços da gasolina em alta nos EUA e os índices de aprovação em baixa, Trump pode pagar o custo nas eleições de meio de mandato, em novembro, quando o controle do Congresso pelo Partido Republicano estará em risco.
“Estamos vendo o que acontece quando um presidente inicia uma guerra por opção, sem antecipar as consequências não intencionais”, disse Aaron David Miller, ex-conselheiro para assuntos do Oriente Médio em governos republicanos e democratas.
De volta à ONU
No discurso a ser feito na reunião anual de chefes de Estado e de governo em Nova York, Trump provavelmente voltará a apresentar como vitória a campanha militar que ele prometeu a princípio que terminaria em semanas. O conflito, em vez disso, transformou-se num impasse, sem que Trump tenha conseguido atingir seus objetivos. E, ao mesmo tempo, a guerra esgotou os estoques de mísseis do Pentágono.
Os problemas de Trump só se agravaram desde que os combatentes houthis derrotaram as forças do governo iemenita apoiadas pela Arábia Saudita, avançando pela costa do Mar Vermelho e tomando ilhas na entrada do Estreito de Bab el-Mandeb, corredor marítimo crucial que permite ao Irã ameaçar ainda mais o fornecimento global de petróleo.
Em resposta às perguntas da Reuters, um alto funcionário do governo Trump disse que os EUA estão focados em interesses de segurança, como garantir a liberdade de navegação no Mar Vermelho, “ao mesmo tempo em que capacitam os parceiros regionais a assumir a liderança na gestão e resolução dos desafios de segurança regionais”.
O assunto Irã ocupou apenas uma pequena parte do discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU no ano passado. Ele relatou como, três meses antes, havia enviado bombardeiros B-2 para lançar bombas de 13.600 kg que “destruíram” a capacidade de enriquecimento de urânio de Teerã. No entanto, especialistas determinaram que os ataques apenas atrasaram seriamente o programa.
“Nenhum outro país na Terra poderia ter feito o que nós fizemos”, disse então Trump. O presidente dos EUA – que fez campanha com a promessa de evitar envolvimentos militares no exterior – também se apresentou como um pacificador, repetindo afirmações de ter encerrado conflitos em todo o mundo, incluindo a guerra de 12 dias entre Israel e Irã em 2025. E insistiu então, mais uma vez, que deveria receber o Nobel da Paz.
Os acontecimentos que se seguiram contrastam com as declarações de Trump. Ele se juntou a Israel no ataque ao Irã em 28 de fevereiro, alegando ameaça nuclear iminente aos Estados Unidos. Especialistas contestaram a afirmação de que o Irã estaria perto de desenvolver uma arma nuclear, algo que Teerã sempre negou buscar.
Porém, Trump subestimou a resiliência do Irã, dizem analistas. Apesar dos ataques aéreos que mataram muitos dos principais líderes iranianos, o país retaliou contra vizinhos do Golfo e as bases americanas que abrigam. Ao mesmo tempo, Teerã mantém um estoque de urânio altamente enriquecido, próximo ao grau de pureza necessário para armas, que se acredita ter sido enterrado pelos ataques dos EUA em junho de 2025.
A porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, disse que somente Trump “teve a coragem” de confrontar o Irã sobre o programa nuclear, e que o presidente americano alcançou todos os objetivos. A economia iraniana está sendo prejudicada pelo aumento das sanções e pelo bloqueio marítimo dos EUA, acrescentou a porta-voz.
Enquanto isso, Trump rejeitou os apelos da Arábia Saudita por uma intervenção militar direta contra os houthis, que concordaram com um cessar-fogo com os EUA no ano passado. Isso abalou a confiança dos países do Golfo nas garantias de segurança americanas, com dúvidas que já haviam sido alimentadas pela decisão de Trump de entrar em guerra sem considerar as objeções desses aliados regionais, dizem analistas.
Trump planeja se encontrar com líderes do Golfo à margem da ONU na próxima semana, informou o Axios.
Dilema de Trump
O dilema para Trump é que, embora os EUA não possam se dar ao luxo de ter os houthis fechando um segundo importante corredor marítimo, ele reluta em assumir uma nova missão perigosa para os militares americanos, já sobrecarregados pelos combates contra o Irã.
Autoridades americanas se reuniram com os houthis no último fim de semana em Omã, onde o grupo afirmou que, embora estivesse visando navios sauditas, não tinha intenção de atacar embarcações americanas, de acordo com cinco pessoas familiarizadas com o assunto.
“Os EUA claramente enfrentam desafios em termos de capacidade (militar), mas mesmo assim, o custo da inação provavelmente intensificará as tensões entre os aliados do Golfo”, disse Jonathan Panikoff, ex-vice-diretor nacional de inteligência para o Oriente Médio.
O súbito ressurgimento dos houthis como uma ameaça regional complicou ainda mais os esforços de Trump para encontrar uma saída para o conflito.
Com a guerra se arrastando pelo sétimo mês, os EUA estão atolados em uma batalha de desgaste, enquanto Trump tenta intensificar a pressão econômica sobre Teerã.
Trump, que tem apresentado cronogramas variáveis, disse a repórteres na quarta-feira: “Esperamos estar perto do fim”. Mas analistas alertam que o conflito provavelmente se prolongará muito além das eleições de meio de mandato.
“O Irã não vai deixá-lo escapar impune agora que tem tanta influência para prejudicá-lo nas eleições de meio de mandato e torná-lo um presidente sem poder”, escreveu Brett Erickson, analista geopolítico e diretor-gerente da Obsidian Risk Advisors, no X.
Fonte: Valor Econômico
Perguntas frequentes
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