AGRONEGÓCIO

Crédito rural: o que o produtor precisa saber

Foto: Magnific O Canal Rural vai lançar um quadro diário em seus telejornais: Canal Rural Explica: Crédito Rural. Com a participação…

Foto: Magnific

O Canal Rural vai lançar um quadro diário em seus telejornais: Canal Rural Explica: Crédito Rural.

Com a participação de especialistas, a proposta é ajudar o produtor a entender o financiamento rural, conhecer as condições dos contratos e saber como agir diante de perdas, problemas com o seguro ou medidas de renegociação anunciadas pelo governo.

O crédito está para a atividade econômica como o oxigênio está para o sangue humano. Sem ele, a produção perde força. Mas, quando utilizado sem planejamento ou contratado em condições inadequadas, aquilo que deveria dar fôlego pode sufocar.

No campo, essa comparação é ainda mais verdadeira.

O produtor gasta antes de colher. Compra insumos, alimenta o rebanho, prepara o solo e investe em máquinas. Entre o desembolso e a receita, enfrenta variáveis que não controla.

O clima muda. Os preços oscilam. O câmbio interfere nos custos. Um problema sanitário pode comprometer a atividade. Uma quebra de safra altera todo o planejamento.

Por isso, o crédito rural não é apenas dinheiro emprestado. É parte da estrutura da produção.

Crédito bom é o que cabe na atividade

Nem todo crédito disponível é um bom crédito.

O produtor precisa saber quanto pagará, quando começará a pagar, quais garantias está oferecendo e se o prazo acompanha o ciclo da atividade.

Um crédito de curto prazo utilizado em um investimento de retorno demorado pode criar um descasamento perigoso. A produção ainda não gerou receita, mas a dívida já começou a vencer.

Antes de assinar, é necessário colocar na ponta do lápis os juros, os encargos, o calendário das parcelas, as garantias e as consequências de um eventual atraso.

Tudo precisa estar claro e documentado.

O Plano Safra não é um único cofre

Quando se anuncia o Plano Safra, o produtor ouve um grande volume de recursos. Isso não significa que todo o dinheiro estará imediatamente disponível, nas mesmas condições, para qualquer atividade.

O Plano Safra reúne linhas de custeio, investimento, comercialização e industrialização. Cada uma possui finalidade, limite, taxa, prazo, garantia e público próprios.

Nesse sistema, o BNDES exerce um papel importante, principalmente nos investimentos de prazo mais longo, como máquinas, equipamentos, armazenagem, irrigação, recuperação de pastagens e modernização das propriedades.

Em geral, esses recursos chegam ao produtor por instituições financeiras credenciadas. O BNDES estabelece as condições dos programas, enquanto bancos e cooperativas analisam o pedido, as garantias e a capacidade de pagamento.

Esse apoio é fundamental. Não seria razoável financiar uma estrutura de armazenagem ou uma máquina de alto valor com uma linha curta, criada para bancar apenas uma safra.

O produtor precisa perguntar: de onde vem o recurso? Para qual finalidade pode ser utilizado? A taxa é controlada ou livre? Existe carência? O prazo acompanha o retorno do investimento?

Anunciar recursos é uma coisa. Fazer o dinheiro chegar à ponta, na hora certa e em condições adequadas, é outra.

O crédito também está fora dos bancos

O financiamento do agronegócio não se resume às linhas bancárias do Plano Safra.

Um dos principais instrumentos privados é a Cédula de Produto Rural, a CPR, que permite antecipar recursos tendo como referência a produção. Dependendo do contrato, a obrigação pode ser quitada com a entrega do produto ou por liquidação financeira.

Há também o barter, operação em que o produtor recebe insumos e assume o compromisso de pagamento futuro, normalmente vinculado à produção.

Instrumentos como a LCA e o CRA ajudam a levar recursos do mercado financeiro para o setor. Eles ampliam as alternativas, mas não eliminam o risco.

Em qualquer operação, o produtor precisa conhecer o custo real, as garantias oferecidas, o preço utilizado como referência e quanto da produção futura já está comprometida.

Informação também é proteção

O produtor conhece profundamente sua atividade, mas nem sempre recebe informações suficientemente claras sobre o contrato financeiro. Uma cláusula ignorada na contratação pode se transformar em um grande problema no vencimento.

Qual é o custo total? A taxa pode variar? Existe carência? Quais bens estão comprometidos? Há exigência de seguro? O que acontece diante de uma perda relevante de receita?

Perguntar não é desconfiar. É agir com responsabilidade.

Seguro não pode ser apenas um papel

Crédito e seguro deveriam caminhar juntos.

Se o financiamento permite produzir, o seguro ajuda a preservar a capacidade de pagamento diante de um acontecimento fora do controle do produtor.

Mas o seguro rural está cada vez mais distante da realidade do campo.

A área segurada caiu de aproximadamente 13,4 milhões de hectares, em 2021, para 3,2 milhões, em 2025. Foi uma redução de quase 77%. Para 2026, a estimativa é de que menos de 3% da área cultivada esteja protegida.

Isso não acontece simplesmente porque o produtor não quer contratar seguro. Em muitos casos, ele não consegue.

As apólices ficaram mais caras, enquanto os recursos públicos destinados à subvenção do prêmio perderam força e previsibilidade.

Forma-se um círculo perigoso: o seguro fica caro, a cobertura diminui, o produtor permanece exposto e, depois de uma quebra de safra, o governo precisa criar programas emergenciais de negociação.

Sempre defendi que o seguro rural deve ser tratado como parte da política agrícola. É melhor ajudar a proteger a produção antes da perda do que gastar muito mais para socorrer o produtor depois.

Ter apólice não significa estar protegido

Mesmo quando consegue contratar, o produtor precisa saber o que o seguro realmente cobre.

É necessário conhecer as exclusões, a franquia, o valor segurado, os critérios para comunicar o sinistro e as condições para receber a indenização.

O que vale não é a promessa feita durante a venda. É aquilo que está escrito na apólice.

E quando a perda não está coberta?

Quando a perda não está amparada pelo seguro, o produtor precisa conhecer as alternativas para reorganizar a dívida.

Normas e programas governamentais podem permitir prorrogação de parcelas, renegociação ou condições especiais. Mas essas medidas não alcançam automaticamente todas as operações nem todos os produtores.

Cada programa possui critérios, prazos e documentos exigidos. Não basta ouvir que o governo anunciou uma renegociação. É necessário saber se aquele contrato está efetivamente contemplado.

Diante de uma perda, o produtor deve agir antes do vencimento: reunir laudos e comprovantes, comunicar formalmente à instituição financeira e verificar as medidas disponíveis.

Informação tardia pode significar a perda de uma oportunidade de renegociar.

O Canal Rural quer ouvir o produtor

Canal Rural Explica: Crédito Rural nasce para aproximar essas informações de quem está na ponta.

O produtor poderá relatar sua situação, apresentar dúvidas e encaminhar, pelos canais oficiais que serão divulgados, documentos como a página inicial do contrato. Senhas, assinaturas, números de conta e outros dados pessoais deverão ser protegidos.

Com o apoio de especialistas, vamos explicar as diferenças entre custeio, investimento e comercialização; mostrar como funcionam CPR, LCA, CRA e barter; e orientar sobre seguro, perdas e renegociação.

Não se trata de prometer solução para todos os casos. Trata-se de oferecer informação para que o produtor conheça seus direitos, faça as perguntas certas e saiba onde buscar ajuda.

Tenho insistido que o produtor precisa deixar de ser apenas tomador para se tornar gestor do próprio crédito.

O dinheiro dá fôlego. O seguro oferece proteção. Mas é a informação que permite escolher o financiamento adequado e impede que um recurso destinado a sustentar a produção comprometa o futuro do produtor.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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Fonte: Canal Rural

Perguntas frequentes

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Diego Freitas

Diego Freitas

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