AGRONEGÓCIO

Quem vai plantar o feijão de amanhã? Tema precisa ser central no próximo governo

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Todos querem encontrar feijão de qualidade e a preço acessível. Mas poucos se perguntam se o produtor terá segurança para plantar a próxima safra.

Essa questão deveria estar no centro da agenda do próximo governo. Produzido em grande parte por pequenos e médios agricultores, o feijão está presente nas regiões, mas quem o cultiva enfrenta custos elevados, riscos climáticos, oscilações de preços e margens apertadas.

O Brasil precisa de uma política nacional para o feijão, com continuidade e visão de longo prazo, integrando crédito, seguro, pesquisa, assistência técnica, armazenagem, inteligência de mercado, compras públicas, consumo e abertura de mercados. Afinal, sem segurança para quem planta, não existe segurança alimentar para quem consome.

O produtor assume o risco, mas não controla o preço Os custos de produção permanecem elevados. Ao mesmo tempo, o feijão é sensível tanto à seca quanto ao excesso de chuva, especialmente durante a colheita.

Um dos maiores gargalos está na falta de previsibilidade comercial. O agricultor decide plantar sem saber qual será o preço na colheita. Quando há redução da oferta, os preços podem subir, mas quem perdeu produção não possui volume para aproveitar a valorização. Quando há boa safra, os preços podem cair rapidamente e comprometer a renda.

A falta de armazenagem agrava o problema. Muitos agricultores precisam vender quando a oferta é maior e os preços estão pressionados. Sem rentabilidade, não existe segurança alimentar duradoura: preços artificialmente baixos desestimulam o próximo plantio.

Crédito, seguro e proteção de renda

Pronaf e Pronamp são fundamentais, mas anunciar recursos não é suficiente. O crédito precisa estar disponível, chegar no momento correto e ter condições compatíveis com a cultura. Além do custeio, é necessário financiar irrigação, reservação de água, armazenagem, secagem, beneficiamento, energia, máquinas e tecnologias de redução de risco.

Pequenos e médios produtores precisam de apoio para elaborar projetos. O seguro rural, por sua vez, deve ter orçamento previsível, cobertura ampliada, valores atualizados e indenizações ágeis.

Precisamos proteger a renda. O seguro agrícola cobre principalmente perdas físicas causadas pelo clima, mas não resolve uma queda severa dos preços. O produtor necessita de instrumentos que combinem proteção da produção e da receita, além de preços mínimos atualizados e operacionais.

Adaptação climática permanente

Seca, calor excessivo e chuvas intensas já fazem parte da realidade do campo. É preciso atualizar o Zoneamento Agrícola de Risco Climático, melhorar as previsões regionais e financiar conservação do solo, irrigação, reservação de água, drenagem, secagem e cultivares mais tolerantes.

Não existe uma solução única para todo o feijão brasileiro. Pesquisa, crédito, seguro e assistência técnica devem considerar cada região e perfil de produtor, reconhecendo quem reduz riscos sem impor exigências inviáveis aos agricultores de menor porte.

Tecnologia precisa chegar à propriedade

O Brasil possui conhecimento para elevar a produtividade, mas muitas soluções não chegam às propriedades ou não se adaptam à escala dos pequenos e médios produtores. É preciso fortalecer pesquisa, extensão rural, unidades demonstrativas e programas coletivos.

Por meio de cooperativas e associações, máquinas, armazenagem, classificação e agricultura de precisão podem ser compartilhadas. Produtividade deve significar também estabilidade, qualidade, eficiência e renda líquida.

O produtor precisa de informações confiáveis sobre área plantada, estoques, qualidade, preços e consumo. Também precisamos avançar na classificação comercial, rastreabilidade, armazenagem regional, comercialização coletiva, contratos equilibrados e integração entre os elos da cadeia.

As compras públicas oferecem oportunidades, especialmente para a agricultura familiar, mas não representam contratos garantidos. Desde 2026, pelo menos 45% dos recursos federais repassados ao PNAE devem ser destinados à aquisição de alimentos da agricultura familiar.

Para aproveitar essa abertura, produtores e organizações precisam estar preparados para as chamadas públicas, com documentação, qualidade, logística e regularidade de entrega. Dentro das regras aplicáveis, os cardápios institucionais também podem estimular Feijões regenerativos, aproximando segurança alimentar, agricultura familiar e recuperação do solo.

Consumo, inovação e novos mercados

O feijão precisa ser reposicionado como alimento contemporâneo, nutritivo, sustentável e alinhado à procura por proteínas vegetais. Há espaço para produtos prontos, porções individuais, farinhas e ingredientes.

Essa inovação não pode ser penalizada. É necessário preservar o benefício fiscal da cesta básica para apresentações práticas de feijão que mantenham sua natureza essencial e seu valor nutricional.

Também devemos valorizar os feijões carioca, preto, caupi, vermelho, branco, rajado e as variedades regionais. Origem, identidade territorial, rastreabilidade e agricultura regenerativa podem gerar valor.

Campanhas como o Viva Feijão devem aproximar o alimento das novas gerações, combinando nutrição, praticidade e cultura alimentar.

No exterior, a exportação não pode ser apenas uma saída para excedentes. Conquistar mercados exige estratégia, protocolos sanitários, promoção e regularidade de oferta. O Brasil pode exportar grãos, ingredientes e produtos de maior valor agregado.

Do gerenciamento de crises à construção do futuro

Pronaf, Pronamp, Proagro, Seguro Rural, Política de Garantia de Preços Mínimos, PAA, PNAE, pesquisa e assistência técnica devem ser fortalecidos. Precisam ser revistos preços mínimos desatualizados, interrupções no orçamento do seguro, burocracia e baixa capilaridade da assistência técnica.

O setor pede condições justas para competir, administrar riscos e investir. O governo deve aproveitar a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva do Feijão do Mapa e implementar o Movimento Pró-Feijão com metas, responsabilidades e acompanhamento.

O Brasil precisa deixar de administrar crises periódicas e construir uma cadeia do feijão organizada e inovadora, capaz de gerar renda, aumentar o consumo, abastecer a população com preço justo e conquistar mercados. Valorizar o feijão é valorizar quem produz, proteger a segurança alimentar e reconhecer um dos alimentos mais importantes da identidade brasileira.

*Marcelo Lüders é presidente do Instituto Brasileiro do Feijão e Pulses (Ibrafe), e atua na promoção do feijão brasileiro no mercado interno e internacional


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Perguntas frequentes

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Gustavo Azevedo

Gustavo Azevedo

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